segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

PELOS CAMINHOS DA PAIXÃO



Pelos Caminhos da Paixão
Margaret Rome
Rapture of the deep
Coleção Julia Edição de Férias, nº 2
Editora Abril , 1982
Assunto Funcionária e patrão

Ela abandona o emprego para morar com a tia que a criou e lá começa a trabalhar para um magnata do petróleo.

CAPÍTULO 1


O silêncio que pairava sobre a sala atulhada de livros, ocupada pelo diretor do Departamento de Ciências de uma conhecida universidade escocesa, era por demais eloquente e revelava um indisfarçado constrangimento. Catherine, de cabeça baixa, fingia estudar os padrões de sua saia xadrez, decidida a conter as lágrimas.
— Menina, por que você está tomando semelhante atitude?
O professor Sandwick estava evidentemente intrigado e, após examinar pela segunda vez a carta que a jovem havia colocado sobre sua mesa no dia anterior, sentou-se e concentrou toda a atenção naquela garota loira, que possuía a calma dignidade de uma princesa viking, e que tinha demonstrado, a partir do primeiro dia em que começou a trabalhar para ele, tenacidade, determinação e firmeza de caráter, sem dúvida herdados de seus decididos antepassados das ilhas Shetland.
— Você por acaso acreditava que, após apresentar sua carta de demissão, não seria convocada para dar uma explicação mais pormenorizada? — O professor continuou. — Você usou o termo "compromissos familiares", a fim de justificar sua fuga. Devo lembrar-lhe que essa expressão era utilizada, há alguns anos, pelas jovens que pediam demissão por estarem na véspera de seu casamento, ou por senhoras casadas que antecipavam a chegada de um bebê. No entanto, as leis que concedem a igualdade de oportunidade para as mulheres as dispensaram de sacrificarem suas carreiras em nome dos compromissos familiares. Catherine, se você tem o casamento em mente ou se descobriu subitamente que está grávida, não precisa exagerar suas reações. Poderemos conseguir facilmente um afastamento provisório.
Catherine levantou-se, indignada com o professor, a quem sempre considerara como um amigo, uma figura paternal. Ele era muito perspicaz e sempre que sentia que Catherine estava nostálgica e saudosa de sua casa, situada em uma remota ilha do mar do Norte, acumulava-a tanto de trabalho, que ela ficava com muito pouco tempo para se entregar à solidão ou cair nas armadilhas que a autopiedade lhe preparava.
O professor Sandwick, especializado em psicologia, cuidava com grande experiência daquela garota que tinha apenas dezesseis anos quando a conheceu, que crescera em um ambiente isolado e era extremamente tímida, a ponto de não conseguir se relacionar com as pessoas de sua idade. Aconselhou-a a se matricular em um curso que lhe permitisse aprofundar sua cultura, o que também significava um avanço para sua carreira, ao mesmo tempo em que lhe proporcionava amplas oportunidades de integrar-se com os outros jovens. Ficou muito orgulhoso quando Catherine terminou o secretariado, com as melhores notas em datilografia e estenografia, correspondência comercial, prática de escritório, inglês e duas outras línguas.
— Não aceito sua insinuação, professor! — ela declarou indignada, e seus olhos verdes fuzilaram de cólera. — Durante os anos que passei na universidade não fiz nada que justificasse uma opinião dessas em relação à minha conduta moral. Um homem como o senhor, professor de psicologia, que passou a vida inteira estudando o comportamento do homem e do animal, não deveria sentir tanta dificuldade assim em concluir que a imoralidade está bem longe de ser uma de minhas características pessoais!
— Catherine, você há de convir que sua posição é delicada. Uma funcionária cuja competência impressionou seu superior a ponto de ele não hesitar em promovê-la de auxiliar de escritório a secretária, e em seguida a assistente, não pode, de forma alguma, acreditar que uma simples folha de papel, na qual pede sua demissão, absolva-a da cortesia de me fornecer uma explicação. Afinal de contas, eu me importo com você, fiz o que estava ao meu alcance para ajudá-la a realizar suas ambições. Não entendo por que decidiu abandonar subitamente uma carreira tão promissora! Achei que já me havia tornado imune à irresponsabilidade da juventude moderna, mas esse exemplo de inconsistência que você me dá deixa-me totalmente surpreso!
— O senhor não deve estar imaginando que me demito por escolha própria! — ela protestou não se conformando com a injustiça daquela acusação. — Tudo o que eu sempre quis da vida se encontra nesta universidade. Sei perfeitamente o quanto tenho sorte e jamais deixarei de ser grata pela bondade e compreensão que o senhor demonstrou em relação a uma jovem inexperiente e solitária, assustada com as dificuldades de uma cidade grande. Sem sua ajuda, não teria conseguido nem a metade de meus diplomas, e foi graças ao senhor que consegui este emprego interessante e bem remunerado, nas proximidades das ilhas Shetland, onde mora a única parente que me resta! Mas agora tia Hanna precisa de mim e tenho de voltar para casa. Eu a vi, com o corpo recurvado pelo cansaço, enxergando mal, os dedos deformados pelo reumatismo. Seu rosto corajoso pela primeira vez denunciava os setenta e poucos anos que ela tem. Se a tivesse visto compreenderia, como eu, que ela já não possui mais condições de ficar sozinha.
— Sente-se, Catherine.
A voz grave e calma do professor Sandwick, seu olhar bondoso e sua simpatia fizeram a jovem perceber que ele a tinha manipulado com muita inteligência. Inicialmente indignada, ela havia acabado capitulando e contando tudo a ele.
— Como é que o senhor ousa me tratar como se eu fosse uma de suas pacientes? — Perguntou, consciente do que havia feito. — Devia ter lembrado que a substituição de uma explosão emocional por outra, de qualidade diferente, é uma de suas técnicas favoritas.
— Vocês, habitantes das ilhas Shetland, não passam de uns individualistas — disse o professor, sorrindo. — Talvez devido à relativa solidão em que sempre viveram achem que têm direito a uma liberdade total, o que muitos de nós invejamos. Julgam ser donos do próprio destino, capazes de tomar suas próprias decisões e seguir apenas aquilo que lhes vem à cabeça. Preferem lutar sozinhos contra quaisquer condições adversas com que se deparem. Em consequência, a fim de descobrir o que queria, fui obrigado a lançar mão de um artifício. Infelizmente, o método mais eficiente de fazer uma mulher falar a verdade é lançar dúvidas sobre sua moral. Você me perdoa?
Catherine corou violentamente, mas para grande alívio do professor, acenou com a cabeça.
— Ótimo. — Ele suspirou. — Agora que superamos a dificuldade maior, vamos encarar os fatos. Segundo entendo, você se sente no dever de abandonar sua carreira, a fim de cuidar de uma tia idosa, que assumiu o lugar de seus pais, falecidos quando você ainda era uma criança

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